Evandro Alves Maciel na Exposição Censurados

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Exposição Censurados sob o olhar de Evandro Alves Maciel

O poeta e fotógrafo Evandro Alves Maciel visitou a exposição "Censurados" de ArsA Crastinum no Mosteiro de São Bento de São Paulo e traduziu o seu olhar, sensibilidade e questões...
Seus pensamentos são toques imagéticos, imagens que tocam.
E assim, a arte continua a construir uma parte da nossa história.
Todo artista também é um historiador. Não podemos esquecer que através da Arte também conhecemos o nosso tempo, o dito contemporâneo.

Após sua visita, o poeta se inspirou em escrever este lindo texto abaixo:

A História das Histórias.:

Evandro Alves Maciel

à Andrea Costakazawa

I
Uma questão que sempre me coloco – e que nos dá o sentido mais adequado do que significa a História – é: como fazemos o registro de nossas passagens pelo mundo e das nossas relações no mundo? Em outras palavras, quais registros elegeremos como expressão daquilo que desejamos afirmar como potência de vida? Que tipos de registros servirão como ponto de convergência para o qual, a partir de um presente determinado, confluem um passado desejável e um futuro conveniente? Como se constrói uma História?

Certa vez iludi a invenção de uma nova disciplina. A História das Histórias. Essa ideia me veio a partir da elaboração de um sonho que conto muito sucintamente: “o homem se encontrava na entrada de uma caverna situada em um deserto. Após hesitar um pouco, decidiu entrar, não sem antes segurar nas mãos em forma de concha um punhado de areia. Lá dentro, maravilhou-se com um lago que ocupava toda a extensão de seu interior. Percebeu, no entanto, que do lado de lá da caverna, isto é, do lado oposto em que se encontrava, havia uma pedra brilhando - vermelha e chamativa - sobre uma pequena elevação. Desejou a todo custo alcançá-la. Para isso deveria, evidentemente, atravessar a nado o lago, já que não havia nenhuma passagem que permitisse costeá-lo. Lembrou-se, em primeiro lugar, que não sabia nadar e certamente se afogaria. Lembrou-se, em segundo lugar, que o punhado de areia que carregava nas mãos se diluiria e – essa impressão era muito forte – se isso ocorresse, igualmente morreria. Lembrou-se, em terceiro lugar, que não sabia, também, voar. Excitado e com medo, passou algum tempo a suspeitar um meio seguro de chegar ao outro lado e, assim sendo, desvendar algum segredo insólito que a pedra o transmitiria. ‘Ora – pensou o homem – de repente o lago nem seja assim tão fundo’. E adentrou. Após os primeiros passos, alegrou-se muito com o acesso que obteve, pois o lago era uma poça rasa e a água lhe chegava no máximo até os joelhos. Caminhou ávida e rapidamente até mais ou menos a metade daquele espelho d’água, protegendo a areia e desejando o segredo. De repente, porém, afundou bruscamente e acordou com a impressão de que havia realmente morrido”.

Não pretendo explicar o sonho. Não tenho competência para tanto. O que farei é dizer das impressões que me assaltaram a mente nos dias que se seguiram e como se produziu em mim a ideia da nova disciplina referida acima. A impressão dominante era a mais óbvia. Havia nessa narrativa um ensinamento oculto, expresso pelo desejo de um tipo novo de conhecimento prometido no vermelho da pedra. As impressões adjacentes eram três: havia um medo recorrente e paradoxal que conflitava diretamente com o desejo de conhecimento; havia o risco de morte no caso de o homem não saber agir para a obtenção do conhecimento prometido, desejado e temido; e havia, por último, o impedimento do homem a tal conhecimento por sua imprudência - que resultou em morte - isto é, que resultou em seu despertar e na perda do sonho.

Muitas vezes tentei fazer o homem voltar àquele local, retomar o sonho do ponto inicial e obter uma nova chance, e o consegui. Mas ele não alcançou a pedra em nenhuma delas. Uma vez tentou efetiva e ridiculamente voar batendo os braços feito um doido. A areia se espalhou pelos ares e ele acordou. Outra vez, tentou escalar a lateral da caverna usando seus cotovelos, pois não podia usar as mãos, e, claro, despencou do primeiro metro para dentro do lago e acordou. Tentou ainda ludibriar o lago pensando-o inexistente. O lago abriu-se em redemoinho, depois tufão, o engoliu e acordou. Certa vez, porém, dormi pensando que ao invés de pôr o homem no ponto de início do sonho, isto é, na entrada da caverna, poderia muito bem sonhá-lo do lado oposto, ou seja, na margem em que estava a pedra. Bingo! O homem surgiu magicamente do lado de lá, pegou a pedra, colocou-a no bolso e nunca mais acordou.

É bem possível que não haja nenhuma relação entre o sonho sonhado e a ilusão de uma disciplina chamada História das Histórias. Mas vai lá entender a mente humana! Após a obtenção da pedra, a primeiríssima coisa que me caiu na testa foi efetivamente a ideia dessa disciplina.

II
Após visitar a exposição: “Censurados”, de autoria dos artistas Andrea Costakazawa e Raphael Amorim, passei a considerar muito vivamente uma nova compreensão dos possíveis significados da História e das Artes. Será preciso dizer, em primeiro lugar, da plena e total coerência na escolha do lugar em que a exposição está sendo apresentada. Trata-se da biblioteca do Mosteiro de São Bento, de São Paulo. Para quem não a conhece, essa biblioteca consiste em um dos acervos mais fantásticos e fundamentais da cidade, senão do país. Sabemos que tradicionalmente, os beneditinos sempre foram responsáveis pela conservação daquilo que de mais potente a humanidade produziu em termos de conhecimento. Sobretudo na forma de registros escritos, sejam eles manuscritos ou livros impressos. Não somente, porém. Sempre houve, também, uma vasta e longa tradição na transmissão de conhecimento na forma oral, seja através das aulas nas Faculdades de Filosofia e Teologia, ministradas por essa instituição há mais de um século; seja na forma de um conhecimento restrito aos membros da igreja.

O desejo de conhecimento parece estar diretamente ligado a um modo da curiosidade que demanda, para sua consecução e efetividade, um cuidado necessário não somente para a conservação de seus tipos de registros, mas também, e talvez principalmente, para a manutenção de uma tradição determinada, depositária de um sentido hegemônico que produz, afirma e mantém, consequentemente, um sentido determinado da História. No entanto, esse sentido não é proveniente, claro, de fonte única, mas de um sem-número de fontes múltiplas, mutáveis e transmutáveis que se criam e se recriam, continuamente, a partir das relações entre o Mundo, os Homens e a Linguagem. Há um afluxo contínuo de elementos, matérias, relações e significados que tomam formas diversas e que irão constituir uma determinada tradição que poderá ou não – por forças circunstanciais e como que por um corte – perdurar ao longo do tempo.

Eu disse por forças circunstanciais e não por Necessidade por mero escrúpulo e respeito a um modo de pensar a História em seu sentido mais concreto. Poderíamos, é certo, pensar a História como o desenvolvimento necessário de certas forças em jogo que culminaria naquilo que se convencionou chamar o fim da História. Não vou entrar no mérito. Há uma deliciosa e rica discussão a esse respeito e escolher definitivamente um ou outro modo de se pensar a História poderia ser, perdoem-me a ousadia da expressão, um apequenamento da Vida. Ademais, cabe a cada um, a partir de seus próprios afetos, percepções e conhecimento, optar por aquilo que torne seu pensamento e suas ações mais potentes. Passo ao largo, portanto, de um aprofundamento maior desse núcleo fundamental, pois desejo falar de outra coisa, embora a esse tema relacionado.

III
Quantas Histórias há? Uma? Duas? Três? Quatro? Quatro vezes quatrocentas? Há tantas Histórias quanto indivíduos existentes? Tantas Histórias quanto indivíduos que existiram? Muitas Histórias a produzir-se a partir das vidas dos indivíduos que ainda existirão? Que especulação mais ociosa, essa, minha! Mudemos a questão: como se produz o presente?

A exposição: “Censurados” é composta de terra, água, fogo e ar. Os objetos que a constituem são a expressão mágica e concreta dos meios pelos quais a Vida mesma se constitui. A leveza do fogo e a rapidez com que em sua dança destruidora ele transmuta o passado em um presente fragmentado – e no entanto: a dureza da terra e a solidez com que em sua música montanhosa ela refunda o presente fragmentado em um presente coeso – e no entanto: a fluência da água e a descomunal potência com que em sua poesia mística ela perturba o presente coeso em um futuro novo – e no entanto: a novidade do ar e a necessidade imperturbável com que vivifica, pictoricamente, o futuro novo em um presente múltiplo – e no entanto...

Haveríamos de intuir que aquilo que chamamos História é na verdade “Histórias”, no plural? Sob essa ótica, portanto, a grande questão que me resta a partir do encontro com a exposição: “Censurados”, é esta: por que a História parece ter sido sempre a História da Igualdade e não da Diferença? Por que a História parece ter sido sempre a História da Unidade e não da Multiplicidade? Por que a História parece ter sido sempre a História da Transcendência e não da Imanência? Esses são problemas filosóficos, decerto. Cabe à Filosofia destrinchá-los, portanto, como ela o faz há tempos.

Interessa-me transformar essas questões e trazê-las mais próximas a nós, porém. Principalmente em uma época crucial como a nossa onde, como em muitas outras épocas, opera-se um apagamento sistemático de determinados tipos de conhecimento e produção de potência. Não somente através de incêndios deliberados das grandes bibliotecas, reais ou simbólicos, mas antes, através de um sistema pedagógico que impede, em última análise, que se produzam modos de pensar que sejam contrários a uma ordem e um ordenamento chapados que nivelam a vida a partir de uma linha inferior à linha da mediocridade (igualité); não somente através da coação, torturas e assassinatos em série como em todas as ditaduras e sistemas totalitários - ainda e infelizmente existentes em nosso tempo, mas antes, através do esmagamento de todos os afetos positivos por intermédio do Medo e do Ódio (liberté); não somente através da orquestração estratégica de guerras mundiais e locais em que territórios são desejados e tomados à força por seu potencial econômico sob o nome de progresso, não sem antes seu povo ser massacrado e aniquilado, mas antes, pelo fomento de uma guerra virtual e não-declarada onde as armas são o próprio desejo individual de cada um alimentado por ilusões ideais (p.ex.: sucesso, beleza, classe, etc) que nos separa de todos os outros e de nós mesmos, de maneira a nós mesmos nos aniquilarmos de tantas e diferentes formas (fraternité).

Por que a Hegemonia e não a Natureza?

IV
De um sonho formou-se em mim o desejo de pensar, ao menos pensar, uma História das Histórias. Isso significa muitas coisas e precisarei deixar para outro espaço e outro tempo a elaboração mais adequada do que seria uma disciplina desse tipo. É preciso concluir o texto presente, bem o sei. Uma última palavra a esse respeito, porém, é possível neste momento:

saí de um sonho e entrei em outro ao ser afetado pela produção artística de Andrea e Raphael. Ali pude preencher certa lacuna de meu pensamento e como que “me ligar” em algo que ainda não havia tocado. Minha pedra vermelha e chamativa. Meu lago de terra, ar, água e fogo: nossa formação (e não estou me referindo somente à formação acadêmica e profissional) depende de uma transformação, ou seja, é preciso que sejamos atravessados por aquilo que nos forma. Será preciso o esforço contínuo e possível para que jamais deixemos de afirmar e registrar – como pudermos – a multiplicidade dos modos de pensar, sentir e agir oriundos das nossas relações com o Mundo e a Linguagem - em todos os tempos; um esforço contínuo e conjunto em tornar visíveis tais atravessamentos que nos marcam, fazer reviver o que morto fora, impedir que se mate a vida de agora e matar o que em nós impede a vida - em todos os tempos; um esforço intensivo e próprio que nos ensine que nós somos muitos e todos, em todos os tempos, ontem, hoje e amanhã – e sempre seremos muitos e todos. A História das Histórias é a luta pela afirmação da vida dos muitos que não mereceram lugar na História.

Retomarei o sonho a partir desse lugar.

Abaixo, algumas fotos da exposição produzidas pelo poeta:

 

 

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